Sobre a existência pisada ou a palavra como rito no Coletivo Negro

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Em raptos de um escrito tardio, voz que adentra a madrugada, é que recordo – meses depois – uma travessia, do centro antigo de São Paulo até a Penha, onde vi {Entre}, a última montagem cênica do Coletivo Negro. Mas a travessia volveu-se em mim, como quem desvia do espelho o olhar e, mesmo assim, termina por enxergar vertigens de uma existência pisada.

A obra dirigida por Aysha Nascimento e Raphael Garcia, em sendas estreitas, com dramaturgia de Jé Oliveira, concatena a palavra como deformação ao adentrar a completude do poema como quem procurasse o eco. Dizer não é suficiente. É preciso acolher partes, excertos. A derivação da palavra inaugural é o que interessa, ato de investigação do sussurro e do berro – em microfones, caixa de sons.

Já no movimento hip hop, a poesia é vertida nesta busca pelos inúmeros significados da palavra e, mais ainda, nas muitas possibilidades da palavra falada e cantada. Aliás, são estas probabilidades que vertem o movimento em dança e injetam em {Entre} elementos da ritualística afro-brasileira. Neste sentido, não nos causa nenhum estranhamento que a peça seja acompanhada por uma banda, formada pelos músicos Fernando Alabê e Cássio Martins, que utiliza de instrumentos musicais eletrônicos a marimbas – algo que evoca alguma ancestralidade. O que é mais peculiar em {Entre} é a ritualização da palavra.

Outros grupos brasileiros de teatro têm investido nesta pesquisa de ritualização da palavra, tendo como referencial o movimento hip hop. Este é o caso do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos que tem realizado trabalhos de alcance ímpar a partir da dramaturgia de Claudia Shapira, poeta das mais inventivas de nossa atualidade.

No Coletivo Negro, é notável este processo desde a montagem de Movimento número 1: o silêncio de depois… com dramaturgia de Jé Oliveira. Por meio da ritualização da palavra, Oliveira investe na transgressão da narrativa para contar histórias de prélio e coragem. Do negro brasileiro, sobretudo. Com isso, tem realizado um trabalho de criação dramatúrgica dos mais relevantes no cenário teatral paulistano.
O eixo temático da peça, a existência pisada que {Entre} desvela, está calcado na esforçosa missão de compreender o esfacelamento da família negra. Todavia, há algo consideravelmente desafiador que é a investigação dos corpos acumulados, deglutidos em um espaço comum. A precariedade do espaço de habitação e a precariedade das relações chama a atenção.

Nada é mais deflagrador da miserabilidade humana que o rosto derruído daquele pai, interpretado por Jefferson Matias, abrindo e fechando portas, como um Joseph K. que, em O castelo de Franz Kafka, não chega a lugar nenhum. Ou o olhar perdido do médico prodígio, interpretado por Flávio Rodrigues. Este ator impetra, numa dança com as palavras, certo estado de desesperança que traduz o que há de mais sofrido no itinerário e lida de nossa gente.

A peça ganha – e muito – com o trabalho audaz de Thaís Dias, em sentidos vários. Thaís, vestida por uma indumentária branca, ritualiza a palavra, o corpo e a cena numa investidura interpretativa que leva a cena ao alcance de significados multiformes, espécie de Pietá (piedade) negra, Nossa Senhora revolucionária que empresta à montagem algo da valentia feminina. A mulher grávida e abandonada interpretada por Thaís aparece como referência da vida da mulher negra no Brasil. No entanto, a mulher vivida pela atriz não sucumbe às ferocidades, pondo-se em pé na peleja por uma existência digna. Fico a pensar em quão arrebatador será o trabalho desta atriz, uma vez alcançando a maturidade.

Há muitas questões de caráter sociológico evocadas em {Entre}. Nota-se o anseio por avistar os fenômenos sociais que as famílias negras defrontam nas cidades, sobretudo. Porém, mais que uma peça-protesto, {Entre} é uma obra revigoradora, uma vez que não abandona a subjetividade dos seres. Não os põe como parte uniforme da multidão, ao contrário. A peça elucida o trucidamento psicológico do ser humano negro num país de contrastes sociais aterradores de um modo pouco visto num teatro que se pretende político.

{Entre} configura espécie de auto de natal, em que a espera pelo nascimento alude também ao anúncio da chegada de um tempo de esperanças. Fez-me lembrar certaMorte e Vida Severina protagonizada por atores negros. Os personagens de {Entre} rememoram a travessia árdua daquele Severino retirante do poema de João Cabral de Melo Neto.
Fez-me recordar também da Missa dos Quilombos. A celebração criada por Dom Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra, com música de Milton Nascimento, aconteceu no dia 20 de novembro de 1981 em Recife (PE). Com participação de público de 8 mil pessoas, a missa denunciou os males da escravidão e do racismo.

{Entre} alcança a poesia dos sonhos que são perdidos dia a dia no turbilhão das cidades de um modo vivificador em encenação, como se pusesse um espelho dentro da mente e do coração dos anti-heróis que protagonizam a peça. Diante dos cegos, este espelho reflete, em fractais, sussurros de vidas que bradam por ser vividas com alguma plenitude. Um trabalho de fôlego.

Por Rudinei Borges

 

Rudinei Borges – Poeta, dramaturgo e ficcionista. Autor dos livros “Chão de terra batida” (poesia), “Dentro é lugar longe” (dramaturgia) e “Teatro no ônibus” (pesquisa). Mestre em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Formou-se em Filosofia. Ator e diretor do Núcleo Macabéa. Editor da Alzira Re(vista). Nasceu em Itaituba, Pará.